A cúpula do crime organizado não costuma se deixar levar pela emoção. Pelo contrário, quase sempre caminha pelas trilhas da razão, e certamente é isso o que tem garantido a existência da maior facção criminosa do Brasil. Mas a notícia que mexeu com o país nesta quarta-feira, 22 de março – o plano para assassinar o senador Sérgio Moro, sua esposa e outras autoridades – tende a ser uma decisão fruto de neurônios duvidosos, na cabeça de quem bateu esse martelo.
O raciocínio parece óbvio: teoricamente (e de certa forma, na prática), quem manda no país são os políticos. É nas mãos deles que se sustentam as canetas mais poderosas da vida em sociedade, capazes de mudar os rumos na nação num piscar de olhos. É ali, naquele Congresso Nacional, que se criam leis da forma como eles bem querem. Até aqui, parece que não citamos nenhuma novidade.
Mas entenda: se o Brasil amarga décadas de uma violência classificada como absurda em qualquer lugar do mundo, é porque o luto decorrente desse cenário não atinge em cheio o topo da nossa pirâmide social. Um ou outro caso, em circunstâncias bem diferentes, pode até ocorrer. Mas da forma como planejaram contra Sérgio Moro, não.
O próprio parlamentar, em entrevista à Jovem Pan News nesta quarta-feira, disse que “é a primeira vez que isso acontece com um senador da República. É muita ousadia”. Questionado sobre o que irá fazer a partir de agora, Moro esclareceu para o bom entendedor:
“Minha preocupação agora é reagir. E como é que senadores reagem? Nós precisamos aprimorar a lei, para proteger os agentes da lei que se envolvem contra o crime organizado e, indiretamente, proteger também a sociedade. O meu foco é esse”, respondeu.
Respondeu em primeira pessoa, claro, mas é óbvio que ele não estará sozinho nessa causa. Além da fatia de deputados, senadores, juízes e promotores de justiça que erguerão o braço apoiando essa ‘reação’, Moro ganha um verdadeiro ‘exército’ – armado! – de seguidores não políticos que também têm enorme interesse no contra-ataque: “os agentes da lei que se envolvem contra o crime organizado”, que em poucas letras atendem pelo nome de POLICIAIS.

Faz um bom tempo que os profissionais de segurança pública clamam por leis que estejam à altura do cenário de violência no Brasil. Se nada mudou, significativamente, nesses anos todos, é porque o crime organizado, até então, só lançava seu manto preto da morte contra pessoas da média/baixa classe social.
Agora, fugindo à regra da capacidade de pensar friamente antes de qualquer decisão desastrosa, o crime organizado pode ter sublinhado uma data para ficar na história do país como ‘o dia em que rodou a chave’.
E se isso resultar numa nova sintonia Política & Polícia, dias melhores virão.